Fundação Cultural Cassiano Ricardo

 

Introdução

 

O complexo agroindustrial da Tecelagem Parahyba pode ser estudado de três pontos de vista diferentes, todos os três extremamente importantes para a sua valorização.

O primeiro ponto seria observá-lo a partir de sua importância histórica. Uma das primeiras indústrias a se instalar em São José dos Campos, a Tecelagem se tornou, ao longo de seus mais de 80 anos de existência, uma empresa de prestígio internacional, que teve influência na vida social, econômica e cultural do município, bem como em seu espaço urbano.

O segundo ponto está relacionado à sua importância ambiental. Com efeito, raras são as cidades brasileiras que dispõem de tão ampla área livre, com tantas árvores, próxima de seu centro urbano, um extraordinário parque urbano, ligando-se com as extensas áreas de planície do Rio Paraíba.

Por fim, não podemos esquecer a importância do conjunto das obras de arquitetura ali encontradas, tanto os edifícios da antiga fábrica Tecelagem Parahyba S.A., que reproduzem os padrões clássicos europeus das fábricas de alvenaria aparente, quanto as obras de Carlos Millán, Rino Levi e Burle Marx.

Este material está dividido em quatro partes. A primeira apresenta um resumo histórico sobre a Industrialização Brasileira desde o Brasil Colônia até os anos 1930, quando se estrutura a história da industrialização em São José dos Campos. A segunda nos mostra os primórdios da industrialização na cidade, na denominada Primeira Fase de Industrialização. A terceira apresenta a história da Tecelagem Parahyba e por fim, temos um resumo da história dos edifícios que serão vistos no passeio.

Em conjunto com estas partes temos quadros com a biografia dos arquitetos e dirigentes que fizeram a história da Tecelagem Parahyba, além de documentos importantes da história industrial do município.

No final da edição temos a bibliografia utilizada para realização do trabalho e aconselhada para quem deseja se aprofundar no assunto.

 

A Industrialização Brasileira

 

O Brasil, de 1500 a 1822, foi colônia de exploração de Portugal. Assim, sua principal função era atender aos interesses econômicos e políticos de Portugal e, indiretamente, seus países aliados. Neste sentido, a Portugal não interessava o crescimento das atividades industriais brasileiras, exceto as que não concorriam com os produtos do Reino. Foram promulgadas leis protecionistas que impediam a criação de manufaturas de fumo, panos e bordados e a ourivesaria (carta régia de 1766 e 1785). Neste período, as poucas atividades industriais eram as indústrias caseiras, a agroindústria do açúcar, as pequenas indústrias no litoral e as que construíam embarcações de madeira. Além da pressão de Lisboa, outros fatores dificultaram o desenvolvimento das atividades industriais no Brasil: a mão de obra escrava, que não permitia a especialização do trabalho e não formava mercado consumidor, as grandes distâncias entre as vilas e aldeias e, consequentemente, a existência de uma população dispersa.

A transferência da família real para o Brasil, em 1808, alterou a política econômica adotada na Colônia, estimulando a criação de indústrias no agora Reino Unido de Portugal e Algarves (1815)[1]. No entanto, a abertura dos portos às nações amigas e o tratado de livre-comércio assinado, em 1810, facilitaram enormemente o comércio de produtos ingleses no Brasil, tornando difícil aos industriais brasileiros criar as condições necessárias para concorrer com a indústria inglesa. Assim, a produção industrial brasileira manteve-se reduzida a pequenas manufaturas que não conseguiam desenvolver-se.

Na primeira metade do século XIX, iniciou-se o lento crescimento da indústria no Brasil, principalmente das indústrias têxteis. No entanto, devido ao crescimento tardio, o país não tinha condições de competir com a Inglaterra na produção de bens de produção, cabendo-lhe mais o papel de produtor de matéria-prima para os países europeus e de mercado consumidor para os produtos industrializados gerados por esses países.

A burguesia nacional em desenvolvimento se via presa entre a necessidade de investimentos e os interesses do capital estrangeiro, principalmente o inglês, e o poder das oligarquias rurais. A partir de 1867, a burguesia começou a se organizar em associações, ganhando força.

No período da Primeira Guerra Mundial, instalaram-se no Brasil aproximadamente 5.940 empresas industriais, compreendendo a produção de aproximadamente trinta artigos novos. No entanto, entre essas indústrias não havia a indústria mecânica, nem a produção de bens fundamentais capazes de gerar uma base industrial no país. Este processo somente começou a ocorrer a partir da década de 1930, com o crack da Bolsa de Nova Iorque – pois os investidores, com a queda do preço do café, buscaram novas áreas da economia para investir – e as iniciativas governamentais de instalar indústrias de base no país. Foi nesta fase de transição que surgiram em São José dos Campos iniciativas para a instalação de indústrias na cidade.

 

Primeira Fase da Industrialização em São José dos Campos

 

Entre o final do século XIX e início do XX, as atividades econômicas predominantes na cidade eram de natureza agrícola. Em 1865, iniciou-se o cultivo de algodão, que alcançou grandes proporções entre 1867 e 1869, mas cuja produção logo declinou. Após 1870, a cidade mantinha-se basicamente do cultivo de café, açúcar, fumo, cereal e criação de gado.

No início do século XX, os governantes municipais encararam a instalação de indústrias na região como uma alternativa econômica para o crescimento do município. Para isto criou-se em 1920 uma comissão especial composta pelos vereadores Silva Cursino e Vasconcellos e Antonio Bento de Moura, com o fito de analisar a possibilidade de um processo de industrialização na cidade. Esta mesma comissão elaborou um projeto de lei que acabou se tornando uma resolução: a Resolução n° 4 de 18/05/1920.

Essa resolução, publicada no Correio Joseense de 30 de maio do mesmo ano, teve como estratégia de ação para atrair indústrias para a cidade a isenção de impostos municipais e a doação de terrenos onde as indústrias se estabelecessem. Estes benefícios eram gradativos, de acordo com as melhorias que om empreendimento proporcionasse à cidade (ver anexo I).

Foram numerosos os pedidos para isenção de impostos atendidos pela Câmara Municipal de São José dos Campos no período de 1920 a 1930. Várias indústrias de diferentes portes e ramos de atividades aqui se instalaram. A primeira grande indústria foi a Fábrica de Louças Santo Eugênio.

Concebida pelo empresário Eugênio Bonadio, que faleceu em 1921, meses antes de sua inauguração, a Fábrica de Louças Santo Eugênio produzia azulejos e louças de pó de pedra. Permaneceu em atividade até 1967. Além dela, a família Bonadio teve outras fábricas, como a Cerâmica Conrado Bonadio e, com a família Weiss, a Cerâmica Weiss (1942), primeira fábrica de adornos cerâmicos do Brasil.

Outra fábrica a se instalar na mesma época foi a Cerâmica Santa Lúcia. Inaugurada em 1922, tinha como proprietários Max e Paulo Becker, que constituíram a firma Max Becker & Irmão. Esta empresa anos mais tarde tornou-se a Cerâmica Paulo Becker, especializada em telhas.

Indústrias de menor porte também se instalaram na cidade, como fábricas de gelo, laticínios, bebidas, papel, meias, etc.

Neste processo de florescimento industrial na cidade, instalou-se no Bairro de Santana, também atraída pelos incentivos fiscais, uma fábrica têxtil, a Tecelagem Parahyba S.A.

Antes de falar da Tecelagem, é importante dizer que as fábricas da primeira fase da industrialização em São José dos Campos foram marcadas por uma organização familiar, centralizada na figura do diretor-presidente. De fato, como o diretor-presidente era ao mesmo tempo o principal acionista ou proprietário majoritário da empresa, as decisões ligadas a planejamento, estratégia e organização empresarial muitas vezes assumiam um cunho pessoal. Ao mesmo tempo, os filhos do diretor-presidente, quando adultos, passavam a assumir postos de gerência na fábrica, com o objetivo de preparar-se para substituir o pai, quando este falecesse ou se aposentasse.

Era comum tais indústrias terem em seus quadros funcionários menores de idade, entre 15 e 16 anos. Não havia na época muitas restrições trabalhistas, podendo o operário trabalhar de 10 a 14 horas por dia, dependendo da empresa.

 

Tecelagem Parahyba

 

Criada em 14 de março de 1925, a Tecelagem Parahyba teve como acionistas na época os senhores Ricardo Severo da Fonseca Costa e Carlos Leôncio de Magalhães, e como diretores o Dr. Paulo de Moraes Barros, Eduardo da Fonseca Costa e José Severo Dumont da Fonseca, entre outros.

Por meio da Lei n° 164, de 15 de setembro de 1925, baseado na resolução de 1920, a Tecelagem Parahyba conseguiu uma série de isenções fiscais, como taxa de água e esgotos, impostos sobre carros.

Muitos obstáculos se interpuseram ao crescimento da fábrica. O principal deles foi a dificuldade da liberação na alfândega federal do maquinário comprado no exterior. Com isto, a fábrica teve que aguardar até dezembro de 1926 para transferir esses equipamentos do Rio de Janeiro para São José dos Campos através da estrada de ferro. 

Este atraso na liberação, fruto do processo burocrático para pedido de isenção dos encargos referentes à importação, trouxe prejuízo aos acionistas. Neste mesmo período o sr. Carlos Leôncio, sócio-fundador, vende suas ações aos outros sócios, desligando-se da fábrica.

A inauguração da fábrica ocorreu em 2 de julho de 1927. Nessa época, o Dr. Paulo de Moraes abandona o cargo de diretor-presidente para assumir o cargo de deputado federal, sendo substituído pelo sr. Antonio de Almeida Braga, outro acionista.

Em 1927 a fábrica contava em 1927, com aproximadamente 7.500 m² de área construída. Em 1935, já empregava 1.000 operários.

Em 1929, com o crack da Bolsa de Nova Iorque, que servia com referência aos preços da produção mundial, houve a queda dos valores de produção no mundo todo, gerando graves problemas para a Tecelagem. Esta contratou então como gerente-técnico o sr. Mallet, técnico de produção, com o objetivo de reorganizar suas atividades produtivas. Foram feitas também, em um curto espaço de tempo, entre 1929 e 1933, várias mudanças nos cargos de chefia, mudanças essas que culminaram com o controle da empresa passando, após 1933, para as mãos de Olivo Gomes.

Eis uma pequena lista de mudanças ocorridas no período:

  • 1929 – transferência do escritório de compra e venda da empresa para São Paulo, sob direção de Eduardo Fonseca;
  • janeiro de 1930 – três peritos na área contábil foram contratados: Eurico Guimarães, Raul Coelho e Olivo Gomes;
  • julho de 1930 – Olivo Gomes assume a gerência da fábrica;
  • 1931 – os diretores renunciam a seus cargos e são substituídos por membros do conselho da empresa;
  • fevereiro de 1932 – o Dr. Armando Dreyer assume o cargo de gerente técnico da empresa;
  • Olivo Gomes recebe uma procuração com plenos poderes de atuação na empresa;
  • maio de 1932 – o Dr. Ricardo Severo substitui o Dr. Paulo Moraes Barros na presidência da companhia;
  • julho de 1933 – assume a presidência o sr. Olivo Gomes.

Neste período de turbulências financeiras, eclodiu o movimento constitucionalista de 1932, o qual afetou sensivelmente a produção das empresas da época. Muitos operários se alistavam nos batalhões de voluntários, diminuindo consideravelmente a mão de obra disponível. Na Tecelagem Parahyba, não foi possível aumentar os salários como medida de manutenção de quadros, uma vez que a fábrica ainda sofria os efeitos da crise econômica. Por outro lado, o movimento foi favorável à produção de cobertores pesados, utilizados pelas tropas paulistas, o que aumentou a produção.

Olivo Gomes, a partir de 1933 diretor-presidente e principal acionaista da empresa, nasceu em Niterói em 1882. Perdeu o pai aos doze anos de idade e teve que começar a trabalhar cedo, o que fez como empacotador e entregador numa casa comercial na mesma cidade. Mais tarde, foi para São Paulo, onde passou a atuar como corretor de algodão. Começou a angariar um patrimônio, que foi perdido com a crise de 1929. Em 1930, foi chamado para periciar os ativos fixos da Tecelagem.

Com Olivo Gomes, a Tecelagem Parahyba S/A iniciou um novo caminho. Enfrentando dificuldades, como a formação de mão de obra industrial a partir de antigos camponeses, a indústria se organizou com rígida disciplina, exemplificada em seu regimento interno, fornecido ao trabalhador assim que entrava na fábrica. Este tipo de organização gerou conflitos com o então nascente movimento operário e contribuiu para a greve de 1935, que fechou a fábrica por quatorze dias e foi divulgada mesmo nos jornais da capital paulista.

Com a crise, Olivo alterou a proposta organizacional da empresa e passou a investir em certas melhorias para a vida dos operários. Ao mesmo tempo, dentro de sua proposta, a empresa diversificou a produção, passando a ser um complexo agro-industrial. Começou a produzir leite, arroz, café, aveia, lã natural e gado de corte, entre outros. Adquiriu as terras próximas à fábrica, além de outras mais distantes, constituindo novas fazendas, entre as se destacavam a Chácara São José, a Fazenda Boa Vista, a Santana do Rio Abaixo, a Pilão Arcado, a Fazenda do Cipó.

Mesmo com a morte de Olivo, em 1957, este processo continuou e se desenvolveu, passando a companhia a constituir um grupo de quatro empresas: a Tecelagem Parahyba S/A, a Tecelagem Parahyba do Nordeste, a Minisa S/A, com tecelagem em linha (jogos americanos, de mesa, etc.) e a ITM, Indústria de Tear Manual, um projeto de seu filho Clemente Gomes, com produção artesanal de tapetes de lã natural.

Além disto, expandiu-se o projeto social da empresa, com um trabalho de formação do operário a ser nela empregado.

A empresa já tinha a Escola Mista Industrial (1928), instalada na propriedade.  Entre 1946 e 1947 foi construído um prédio para este fim, próximo à primeira Vila Operária. No mesmo havia também um consultório dentário, uma farmácia e um consultório médico para pequenas emergências. A empresa tinha também um convênio com o Hospital Pio XII.

Outro convênio foi feito com o Instituto São José, que concedia bolsas de estudo para os estudantes da Escola Mista Industrial, filhos dos operários da empresa.

Houve também a abertura do Mercado para Operários (1951), tendo sido construído um prédio em madeira para este fim. Procurou-se fornecer aos funcionários produtos a baixo custo, num sistema inédito no país, similar aos supermercados americanos. Esse mercado funcionou por três meses, até que foi atingido por um incêndio. Recuperada grande parte dos produtos, foi reinstalado no prédio do refeitório, onde permaneceu por várias décadas.

Na década de 1950, foi aberta uma pequena creche para 15 crianças, no mesmo edifício em que havia a escola. Essa creche funcionou menos de um ano, devido às dificuldades de deslocamento das mães para trazerem seus filhos.

Em 1950, foi construído um prédio próprio para a escola, com projetos de Arquitetura Moderna no Complexo Tecelagem Parahyba S/A e Fazenda Sant’ana do Rio Abaixo S/A.

Os filhos de Olivo Gomes faziam parte do Clube dos Artistas, em São Paulo, frequentado por Carlos Millán e outros intelectuais e artistas da época. Deste contato surge a proposta para Millán construir a escola para operários. Com o resultado obtido na execução do projeto do chamado Grupo Escolar Tecelagem Parahyba S.A., surgiu a proposta da construção da nova residência para o Sr. Olivo Gomes e família. Carlos Millàn, propôs que um colega encampasse o projeto, o sr. Rino Levi.

O próprio Olivo Gomes se deslocou para o escritório de Rino, na rua General Jardim, São Paulo, para os primeiros contatos. Iniciou-se, então, uma amizade que durou até o fim da vida de Olivo, em 1957.

Nas décadas de 1950 e 1960, a Tecelagem Parahyba controlava cerca de 70% do mercado nacional de cobertores de mantas, passando, na década de 1970, a exportar seus produtos para diversos países, como o Canadá e os Estados Unidos. Neste período foram construídos a Residência Olivo Gomes (1951), o Galpão para Máquinas (1957), o complexo da Usina de Leite (1963), a Residência Carlos Millán (1951), o Hangar para Aviões (1965) e a Nasa Nova Aliança (1965) e foi executado o paisagismo da Residência Olivo Gomes, de autoria de Roberto Burle Marx (1966).

Em 14 de novembro de 1962, os herdeiros de Olivo Gomes constituíram a Sociedade Anônima Fazenda Sant'Anna do Rio Abaixo, tendo como diretor presidente o Dr. Clemente Fagundes Gomes, como diretor-vice-presidente o Dr. Luiz Fernando Rodrigues Alves e como diretor-superintendente o Dr. Severo Fagundes Gomes. Seu capital inicial era de Cr$ 240.000.000,00 (duzentos e quarenta milhões de cruzeiros); tinha 3.020 cabeças de gado. A produção se aperfeiçoou e passou-se a produzir leite “C” ou “B” e a promover a reprodução por meio de inseminação artificial, tendo a empresa sido pioneira no Brasil nesta técnica. Promoveu-se também a recuperação das terras empobrecidas pela produção de café por meio de um regime de vazantes naturais e do controle do regime das cheias periódicas do rio, irrigando assim as áreas de cultivo[2].

No entanto, os vários planos político-econômicos nas décadas de 1970 e 1980, a instabilidade econômica e a hiperinflação, além da falta de modernização dos processos produtivos e as dificuldades financeiras internas, fizeram com que a empresa se endividasse, passando por uma concordata em 1983.

Em 1993, a Tecelagem Parahyba entregou parte de seus bens para o Governo do Estado, e outra parte tornou-se uma cooperativa de funcionários, com direito de utilização de prédios e máquinas por vinte anos.

Atualmente, as outras áreas são utilizadas pela Fundação Cultural Cassiano Ricardo, pelo IBGE, pela FUNDHAS, pelo SUS, pelo Parque da Cidade, pela Secretaria de Economia e Planejamento e pela Secretaria Estadual de Esportes.

 

Bens preservados

 

Fundação Cultural Cassiano Ricardo (edifício da década de 1940)

Criada pela lei municipal (nº 3050/85), em substituição ao Departamento de Cultura, para formular a política cultural do município, orientando, incentivando e patrocinando atividades artísticas, visando um maior acesso da população aos bens culturais;

Caracteriza-se por ser uma fundação pública de direito privado, assessorada por um conselho deliberativo dirigido por uma diretoria executiva e fiscalizada pelo Ministério Público;

Ocupa um dos prédios que compõe a série de edificações industriais do complexo fabril. Esta edificação era o antigo refeitório. Num primeiro momento, o refeitório utilizava toda a sua extensão. Com o incêndio do Mercado para Operários, poucos meses depois de sua inauguração (1951), parte deste prédio passou a abrigar o mercado para operários. Na década de 1970, passou a funcionar como loja da fábrica, até o fechamento da empresa, em 1993.

 

Arquivo Público do Município (edifício de 1953)

Criado pela lei municipal nº 4446/93, de 1º de outubro de 1993, destina-se à proteção e salvaguarda dos documentos públicos e privados que sejam de importância para a história do município. Possui amplo acervo de documentos, livros e imagens da cidade divididos em fundos públicos e privados. No prédio ocupado pelo Arquivo eram realizadas atividades de enfardamento.

 

Museu do Folclore (edifício da década de 1920)

Provavelmente construída na década de 1920, tinha como função abrigar o gerente da fábrica, sendo por isto, chamada de Casa da Gerência. Seu acesso é marcado por uma alameda de figueiras. Quando o Sr. Olivo Gomes assumiu a gerência, residiu neste local, juntamente com sua família. Permaneceu nesta casa até a construção da residência principal, projetada por Rino Levi.

Após a mudança para a nova residência, essa tornou-se casa para hóspedes, amigos, parentes e empresários, recebendo da família o nome de “Casa Velha”.

Permaneceu como casa de hóspedes até a década de 1970, quando se tornou novamente casa do gerente. Em setembro de 1996, foi apresentado o projeto de ocupação pelo Museu do Folclore, sendo no final de 1997, iniciadas as obras de recuperação do edifício.

 

Secretaria Municipal de Meio Ambiente (década de 1930)

Um dos primeiros prédios construídos dentro do projeto agroindustrial de Olivo Gomes, provavelmente na década de 1930, com a função de beneficiar arroz e café (retirada da casca e da palha, no caso do arroz, secagem do café).

O arroz plantado nas fazendas da família era todo beneficiado neste galpão. A produção de café logo foi abandonada pela família, enquanto o arroz era produzido em larga escala. Com o aumento gradativo da produção, o galpão passou a não comportar as necessidades da produção. Desta forma optou-se por vender o produto sem beneficiamento. No entanto, este galpão manteve-se em funcionamento até 1968, beneficiando o produto para o abastecimento do mercado da Tecelagem e para própria família. Em 1969 (Decretos-lei federais nº 564/69 e 704/69), com a formação da previdência social para funcionários rurais e a obrigatoriedade de contratar funcionários temporários com todos os encargos trabalhistas (para a colheita chegavam a contratar nas fazendas trezentos temporários, quando os efetivos eram cento e oitenta), a produção agrícola tornou-se inviável para a empresa. Desta forma, optaram por sua extinção e por fortalecer a pecuária, mais lucrativa e operada só com empregados efetivos. Este galpão, então, tornou-se depósito de ferramentas e produtos utilizados na fazenda. Em 1996, após a desapropriação pela Prefeitura, tornou-se depósito do Bloco Verde da Fundhas e de alguns materiais da Prefeitura. Após obra de requalificação e recuperação, instalou-se nele a Secretaria Municipal de Meio Ambiente.

 

Paisagismo (décadas de 1950 e 1960)

Importante trabalho realizado pelo paisagista Roberto Burle Marx, de criação dos jardins em torno da Residência Olivo Gomes. Estes jardins, conhecidos internacionalmente, foram objeto de muitas reportagens e referência em revistas especializadas, periódicos em geral e biografias dedicadas ao paisagista.

Quando propriedade da Família Gomes, instalou-se na área um Viveiro de Mudas, mantido pela família e coordenado por Roberto Burle Marx, para a manutenção constante dos espécimes existentes no Jardim. Em todo esse trabalho, Burle Marx teve como auxiliar Haruoshi Ono. Ono passou a integrar a equipe do paisagista e, com sua morte, assumiu seu escritório.

Desde 1996, em conjunto com outras áreas anteriormente pertencentes às fazendas da família, o jardim compõe o denominado Parque da Cidade “Roberto Burle Marx”.

 

Residência Olivo Gomes (1951)

Construída em 1951, para atender às novas necessidades da Família Gomes. O projeto é de autoria de Rino Levi Associados. Concebida para receber grande número de pessoas, a Residência tem como característica uma divisão muito clara entre os ambientes comuns e os de uso privado da família. 

Nesta residência localizam-se três dos quatro painéis elaborados por Roberto Burle Marx para o Complexo.

Hoje ela é o “coração” do Parque da Cidade.

 

Anfiteatro (1966)

Trata-se de elemento integrado ao paisagismo, localizado à frente da Residência Olivo Gomes e constituído por palco e arquibancada dispostos sob forma de um pequeno anfiteatro de arena. É utilizado em algumas atividades do parque.

 

Viveiro (década de 1950)

Está inserido ao projeto arquitetônico da residência. Construído em concreto aparente, característico da Arquitetura Moderna. Possui tela de proteção em todo o seu perímetro e estrutura sustentada por pilares circulares de concreto. Uma parte da laje de cobertura é vazada, constituída por pérgolas de concreto. Na parte interna há um lago para as aves.

 

Casa da Ilha (provável construção na década de 1930)

Segundo informações de familiares e funcionários, era uma antiga casa de colonos, reformada por Clemente Gomes, por volta da década de 1980, para ser residência de seus filhos, que em momentos distintas nela viveram. A residência é constituída por lareira, sala íntima, três dormitórios, dois banheiros, um lavabo, cozinha com azulejo nas paredes e no teto. Atualmente é utilizado pelo CRA – Centro de Referência Ambiental, projeto de educação ambiental da Prefeitura Municipal de São José dos Campos. Para o desenvolvimento das atividades do CRA foram criadas uma horta e um viveiro de animais exóticos.

 

Indústria de Tear Manual (entre as décadas de 1930 e 1950)

Não se sabe ao certo quando foi construída, sendo utilizada inicialmente como casa de força da Fazenda. Na década de 1960 passou por intervenções para abrigar a ITM - Indústria de Tear Manual. Esta se constituía de um projeto pessoal de Clemente Gomes de criação de tapeçarias realizadas em teares manuais, com desenhos e estampas de artistas de renome no Brasil e no Mundo, como Roberto Burle Marx. Funcionou até a década de 90.

 

Galpão de Máquinas e Equipamentos (1957)

O amplo espaço foi construído para abrigar máquinas e equipamentos agrícolas. No bloco fechado encontram-se os depósitos, o almoxarifado, os sanitários e um posto de abastecimento de combustível onde está o quarto painel de Burle Marx. Em bom estado de conservação, é utilizado para eventos em geral, principalmente feiras comerciais.  Atualmente é denominado oficialmente Pavilhão “Francisco Moreno Ariza”, embora seja conhecido como “Galpão Gaivotas”.

 

 

Glossário

Arquitetura Moderna – Movimento arquitetônico introduzido no início do século XX por arquitetos da Europa e dos Estados Unidos. Tem como característica o uso de formas geométricas, composição sem simetria, ausência de ornamentação (enfeites) e amplas aberturas (janelas, portas, ou qualquer rasgo nas paredes) nas fachadas (parte exterior). No Brasil foi introduzido por Le Corbusier, na década de 30.

Colônia – Uma das principais organizações do Império Colonial de Portugal, marcado pelas grandes navegações portuguesas, em busca das riquezas da Índia. As colônias eram terras distantes em termos geográficos à Nação Portugal, mas através do “Descobrimento”, passavam a ser controladas politicamente e exploradas economicamente pelo centro do Império, ou seja, Portugal.

Engenhos – áreas do Brasil colonial, onde se produziam açúcar, a partir do caldo tirado da cana. Eram subdivididas em várias funções. Os grandes engenhos podiam ter de 60 a 200 escravos, eram instalados em grandes áreas de terra e procuravam produzir tudo o que fosse necessário a sua existência dentro destas áreas. Foi a principal forma de produção econômica do Brasil, nos primeiros séculos da colonização.

Indústrias – Conjunto de atividades econômicas que tem por fim a modificação de produtos naturais, chamados de matérias-primas através de fontes de energia e máquinas. Também tem este mesmo nome, a transformação de produtos semi-acabados em bens de produção ou de consumo. 2. Conjunto formado pelas instalações, pelo conjunto de máquinas e pelos operários. O mesmo que fábricas, empresas.

Metrópole – Centro do Império Colonial, ou seja, a própria Nação (no nosso caso, Portugal) que controla a política, a lei e a economia de todas as Colônias, explorando suas riquezas.

Movimento Constitucionalista de 1932Revolução paulista contra o governo Federal de Getúlio Vargas, após uma série de manifestações em São Paulo, gerando a morte de quatro estudantes: Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo – MMDC, nome dado ao Movimento. Exigia a elaboração da Constituição Federal. Durou três meses (de 09 de Julho a Outubro de 1932). Mesmo derrotado, a Constituição Federal acabou sendo promulgada em 1934.

Patrimônio Cultural – herança ou identidade cultural que não se quer perder; identidade nacional que se quer afirmar ou reafirmar; conjunto de bens naturais, materiais ou maneiras de fazer, móveis ou imóveis, produzidos pelo homem, cuja preservação se faz necessária por serem testemunhos do conhecimento, das mudanças de usos e costumes que formam e atestam a identidade de um povo.

Quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque – a partir de 1925 a economia americana começou a enfrentar sérios problemas. A produção de produtos industrializados era muito mais acelerada que o crescimento dos salários, enquanto que os países da Europa se recuperaram da Primeira Guerra Mundial, passando a competir com os produtos americanos. Isto gerou uma superprodução, fazendo com que os produtos agrícolas e industriais ficassem parados nos armazéns das fazendas e fábricas. Industriais e fazendeiros passaram adquirir cada vez mais empréstimos, e, ao mesmo tempo, a demitir funcionários, aumentando o desemprego e a especular na Bolsa de Valores, negociando com as ações, como se a economia estivesse saudável. As ações começam a baixar em 1929. Este processo chega ao seu limite em 29 de outubro de 1929, quando havia milhões de ações à venda das fábricas e empresas agrícolas, mas ninguém para comprá-las.  Milhares de bancos, fazendas e indústrias faliram no país e mais de 12 milhões de norte-americanos desempregados. Devido a isto, os Estados Unidos suspendem os empréstimos de dinheiro aos outros países e diminuem consideravelmente a compra de produtos estrangeiros, afetando grande parte do mundo.

Reino Unido de Portugal e Algarves – D. João VI, rei de Portugal, desde 1792, sofreu grandes pressões externas tanto da Espanha, que queria anexar Portugal ao seu reino, quanto da França, com a política de expansão de Napoleão Bonaparte. Esta tensão externa se agravou com a aliança de Espanha e França e o ameaça francesa de invasão à Nação Portugal caso esta não se aliasse a França, contra Inglaterra. Diante desta situação, o governo português optou por mudar a Corte Portuguesa de Lisboa para o Brasil (Rio de Janeiro). Fogem em 29 de Novembro de 1807, instalando-se a Corte em 1808, sendo elevado o Brasil a Reino Unido em 1815.

 

TEXTO 1

 

RESOLUÇÃO N. 4 DE 18 DE MAIO DE 1920

Concede favores para a fundação de estabelecimentos fabris, nesta cidade e suas imediações.

O Tenente Coronel João Alves da Silva Cursino, prefeito deste municipio de S. José dos Campos.

Faço saber que a Camara Municipal, em sessão de 15 do corrente mez, decretou e eu sancciono a seguinte resolução:

A Câmara Municipal de S. José do Campos, resolve:

Artigo 1º - Qualquer capitalista ou industrial que estabelecer nesta cidade, ou em suas immediações, uma industria fabril com capital minimo de 50:000$000, gozará de isenção de impostos municipaes por um prazo que será relativo, não só ao capital empregado, como tambem no numero de operarios que o estabelecimento occupar.

Art. 2º - Si a fabrica a estabelecer-se, occupar um numero de operarios não inferior a 100, alem da isenção de impostos municipaes, a Camara cederá gratuitamente, por longo praso, o terreno necessario ao estabelecimento e suas dependencias, inclusive habitações para operarios.

Art. 3º - Si o proprietario de uma fabrica de 100 ou mais operarios empregar operarios desta cidade e seu municipio (principalmente mulheres) em numero não inferior a um terço de todo o pessoal, a Camara lhe fará doação do terreno occupado, logo que se verifique que os operarios do logar se acham satisfeitos e tem garantia de permanecer em seus empregos.

Art. 4º - Egual doação será feita ao proprietario de qualquer fabrica, cuja materia prima fôr susceptivel de ser produzida em larga escala no municipio.

Art. 5º - A fixação dos prasos de isenção de impostos e de cessão temporaria gratuita de terreno será resolvida pela Camara em cada caso que se apresentar; assim como a doação de terrenos.

Art. 6º - Revogam-se as disposições em contrario.

 

O Secretario da Prefeitura a faça publicar.

 

Prefeitura Municipal de São José dos Campos, 18 de Maio de 1920.

 

João Alves da Silva Cursino

Prefeito Municipal

 

Luis Jacintho de Medeiros

Secretario da Prefeitura

 

 

TEXTO 2

 

As graves occorrencias na Tecelagem Parahyba, de São José dos Campos

 

Como tem noticiado a imprensa, a fabrica Tecelagem Parahyba, de S. José dos Campos, encerrou o seu trabalho no sabbado ultimo, em consequencia de graves acontecimentos que alli se desenrolaram, provocados, segundo estamos informados, por elementos extremistas que se infiltraram entre os operários do estabelecimento, procurando obrigal-os a se declararem em gréve.

Os agitadores não são residentes em S. José dos Campos, mas sim nesta capital, mantendo, porem, ligação com um grupo que age naquella cidade.

Informações obtidas em São José dizem que a agitação foi provocada por esses elementos estranhos á fabrica, cujos operarios se mostram satisfeitos com a direcção do estabelecimento, não tendo havido reclamação alguma, nem qualquer desintelligencia entre dirigentes e empregados.

Ao que sabemos de há muito os directores da fabrica vinham acompanhando os planos dos agitadores, empenhados em levar a effeito um ataque ao estabelecimento. Estavam portanto, de sobreaviso e convenientemente preparados para se defenderem do ataque projectado.

Sabbado ultimo, sem que precedesse a mais leve reclamação, da 3.a turma de operarios, composta de cerca de 65 pessoas, compareceram ao serviço apenas 14 trabalhadores, sobendo-se que os restantes estavam reunidos em sessão preparando o attentado.

Diante do occorrido, o director superintendente do importante estabelecimento fabril resolveu como medida disciplinar, dispensar do seviço os 51 operarios faltosos.

Estavam as coisas neste pé quando, dois dias depois, ou seja na segunda-feira quando a fabrica trabalhava normalmente com seus “950 operarios restantes, disciplinados e satisfeitos, alli chegaram os 51 trabalhadores comprometidos, os quaes invadiram violentamente o estabelecimento, em attitude ameaçadora, tentando fazer parar os motores, estabelecer panico e interromper os trabalhos, para se apoderarem da fabrica. Com o superintendente da fabrica a frente, o seu gerente e outros operarios do estabelecimento, foram os agressores expulsos do edificio.

Avisada a policia, nesta capital, o dr. Leite de Barros, delegado da Ordem Politica e Social, ordenou a partida para S. José dos Campos de uma força do 5.o batalhão da Força Publica, aquartelada em Taubaté, assim como a ida para a mesma localidade do delegado dr. Louzada, o qual effectuou a prisão dos assaltantes e iniciou inquerito policial sobre os graves acontecimentos.

Trata-se, como se vê, de um attentado, talvez sem exemplo nestes ultimos tempos, contra a propriedade alheia, para della se apossarem elementos extremistas; e não de uma gréve normal com o fim de se pleitearem direitos.

Sabemos que em virtude do que se passou, terminado o inquerito policial, em vias de conclusão, a directoria da fabrica o revocara a si para punir convenientemente os culpados, de accôrdo com a lei.

A “Tecelagem Parahyba” mantem em serviço para mais de mil operarios e é dirigida modelarmente, com a mais rigorosa disciplina, mas sem desattender jamais aos interesses e necessidades de seus collaboradores. Mantem alli uma cooperativa para fornecimento de generos ao pessoal, ao lado da assistencia medica e dentaria.

S. José possue uma população de 8.000 habitantes, dos quaes 4.000 tem os seus destinos ligados á fabrica.

Isso, por si, mostra o interesse que devem ter as autoridades locaes e os elementos pensantes da cidade em pór cobro a essas explorações francamente criminosas e altamente prejudiciaes á ordem e ao progresso do logar.

Somos pelos fracos e somos pela justiça, e o somos intransigentemente. Mas não podiamos deixar de verberar com todas as forças de que dispomos, os actos de violencia praticados em S. José dos Campos contra a Tecelagem Parahyba.

A sociedade culta de S. Josè já terá comprehendido assim e não regateará, por certo, o seu concurso á directoria da fabrica e ás autoridades policiaes para que se opere de vez a repressão contra os autores do attentado.

 

(Editorial do Diario Popular de 9-2-1935)” (17/02/1935 – capa e pág. 4)

 

 

TEXTO 3

 

Biografia dos diretores da Fábrica

 

Não temos dados biográficos acerca destes primeiros proprietários da Tecelagem. No processo de pesquisa, encontramos personagens da história do país, principalmente da região paulista, homônimos a estes acionistas. Além dos nomes, os períodos de vida conferem com os mesmos. Decidimos expô-los aqui, mas esclarecemos que não temos no momento como comprovar a ligação ou confirmar a identidade dos mesmos.

Carlos Leôncio de Magalhães possivelmente tratava-se do “barão de café” natural de Araraquara, considerado o maior cafeicultor paulista do início do século XX. Foi proprietário das fazendas Cambuhy, Boa Vista, California, Toriba, Nichteroy, Arizona.  Um empreendedor de negócios cafeeiros que se destacou por ter transformado suas fazendas em um complexo agro industrial em 1912, com o nome Companhias Agrícola e Pastoril do Oeste de São Paulo – CIAPOSP. Esta companhia foi vendida em 1924 para um grupo de acionistas internacionais, com sede em Londres.

Na História da Arquitetura e Engenharia Paulista, destacou-se o engenheiro português Ricardo Severo da Fonseca e Costa (1869-1940), natural de Lisboa, conhecido na historiografia da arquitetura brasileira como precursor do neocolonial no país. Faleceu em São Paulo.

O Dr. Paulo de Moraes Barros realmente foi um dos diretores acionistas da Fábrica. Nasceu em 16 de julho de 1866 na cidade de Piracicaba. Formou-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Retornando a Piracicaba instalou seu consultório na Rua São José. Exerceu vários cargos de cunho político, de vereador a intendente municipal, chefe do Partido Republicano Paulista em Piracicaba, deputado federal, secretário de Agricultura, Indústria e Comércio de São Paulo (1912-1915). Em 1927, reelegeu-se deputado federal. Tendo sido um dos ativistas na Revolução de 1930, ocupou interinamente o Ministério da Aviação e Obras Públicas. Durante a Revolução Constitucionalista foi secretário do governo paulista. Em 16 de dezembro de 1940, aos 74 anos de idade faleceu em São Paulo sendo sepultado no Cemitério da Saudade, em Piracicaba.

José Severo Dumont da Fonseca é citado em site[3] sobre a vida de Santos Dumont como parente do pai da aviação, participando do seu cortejo fúnebre em 23 de julho de 1932. Não encontramos mais dados acerca do mesmo.

 

TEXTO 4

 

Biografia dos Arquitetos e Paisagistas Modernos que desenvolveram projetos no Complexo Tecelagem Parahyba

 

Rino Levi (1901-1965)

Filho de imigrantes italianos, Rino Levi nasceu em São Paulo no ano de 1901, tendo iniciado seus estudos no Colégio Dante Alighieri e concluído na Itália, onde frequentou a Escola Politécnica de Milão e a Escola de Belas Artes de La Brera.

Diplomou-se em Roma, onde permaneceu até l926 trabalhando no escritório de Piacentini. Retornou ao Brasil em l927, substituindo Warchavchik na Construtora de Santos e estabelecendo-se por conta própria um ano após.

A princípio permaneceu fiel às lições de seu mestre italiano, praticando uma arquitetura marcada pela sobriedade obtida por intermédio da reinterpretação e simplificação dos cânones clássicos. Sua adesão aos princípios do racionalismo foi progressiva, o que não impediu que o conjunto de suas obras estivesse fortemente caracterizado pela coerência e unidade. Soube estabelecer em sua produção o equilíbrio entre os valores plásticos e os de natureza funcional e, desde cedo interessou-se nos problemas do urbanismo e no papel das obras de arquitetura na qualificação de uma estética urbana. É conhecido o seu rigor técnico, suas preocupações quanto ao perfeito equacionamento das estruturas e o correto emprego dos materiais, ajustando-os em consonância com a ordem dos espaços e às finalidades dos programas sociais.

Até o início da Segunda Guerra Mundial, ao lado de Warchavchik, foi partidário de uma renovação arquitetônica tendo “uma destacada importância na implantação do movimento moderno no Brasil, seja pela repercussão de seus projetos, seja pela sua ativa participação no ensino e na valorização do trabalho” (PROJETO, 1995; 16).

Entre suas obras pioneiras encontramos o Edifício Columbus, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras “Sedes Sapientiae” e o Edifício Prudência, todas em São Paulo, mencionando-se apenas as mais notórias.

Com os arquitetos Roberto Cerqueira César e Luiz Carvalho Franco, formam a empresa “Rino Levi Arquitetos Associados S.A.” desempenhando trabalhos importantíssimos, onde evidencia-se o conjunto de hospitais, quando pela primeira vez tais projetos foram estudados de forma rigorosa, privilegiando-se a sua funcionalidade. Datam deste período as obras do Instituto Central do Câncer (1947-54), a Obra do Berço e o Hospital Albert Einstein, embora esta última tenha sido profundamente desfigurada durante a execução das obras, a revelia de seus autores.

Num capítulo à parte podemos conhecer o conjunto de sua obra por intermédio de seus projetos de residências localizadas na capital paulista: à Rua Bélgica (1944), a de Milton Guper (1951), a de Castor Delgado Perez (1958), além da residência Olivo Gomes (1950), em São José dos Campos, obra esta que marcou o início de sucessivos projetos realizados para a Família Gomes até o fim de sua vida em 1965.

Suas obras são importantes para a qualificação internacional da Arquitetura Moderna Brasileira, demonstrando versatilidade ao projetar edifícios residenciais, cinemas, fábricas, residências e hospitais. São referências obrigatórias para a compreensão da Arquitetura Brasileira em sua vertente paulista.

 

Burle Marx (1909-1994)

 

Nasceu em São Paulo em 4 de agosto de 1909.

 

Aos dezenove anos apresentava sérios problemas de visão e, por recomendação médica, fez sua primeira viagem à Alemanha para tratamento. Lá descobriu a beleza das plantas brasileiras cultivadas nas estufas do jardim botânico de Dahlem, cujo acervo vinha sendo coletado desde o século passado pelos naturalistas estrangeiros. Simultaneamente com o interesse pelas plantas e jardinagem veio o fascínio pela pintura, onde também apresentou grande talento.

Em 1930, aconselhado pelo amigo e arquiteto Lúcio Costa, ingressou no curso de pintura da Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro. Conviveu com os grandes arquitetos brasileiros: Oscar Niemeyer, Jorge Moreira, Carlos Leão e os irmãos Roberto.

Conhecido como o paisagista que libertou os jardins brasileiros da simetria européia e revelou a beleza de milhares de espécies da flora tropical. Seus jardins e parques de formas abstratas e sinuosas podem ser vistos em quase todas as grandes capitais do país e até no exterior.

Lúcio Costa foi quem lhe atribuiu a responsabilidade pela elaboração de seu primeiro projeto de jardim, para a Residência de Alfredo Schwartz, realizado no ano de 1932.

Entre 1934 e 1937 exerceu o cargo de Diretor de Parque e Jardins na Cidade do Recife, ocasião em que teve a oportunidade de empreender suas primeiras obras de jardins públicos e praças, desenvolvendo os projetos para a Praça Euclides da Cunha, o Jardim da Casa Forte, o da Praça da República, o Jardim do Derby e a Praça Artur Oscar, desejando “livrar os jardins do cunho europeu, que sempre foi seguido entre nós”.

Em 1938, projetou os jardins do Ministério da Educação e Saúde, ligando-se a equipe de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Neste período realizou inúmeros projetos de jardins, inclusive o jardim da Residência Roberto Marinho.

Burle Marx manteve estreita colaboração com o arquiteto Rino Levi, havendo participado dos projetos da Tecelagem Parahyba e da Fazenda Sant’Anna do Rio Abaixo, bem como dos projetos do Centro Cívico de Santo André e da sede do Banco Itaú, em São Paulo.

Nas décadas de 50 e 60 Burle Marx realizou vários painéis e os projetos de paisagismo do complexo da Tecelagem Parahyba. Neste trabalho, “soube fazer despertar o uso da tecelagem para fins artísticos e formar um de seus jardins particulares mais expressivos, além de executar quatro painéis em cerâmica, sendo três para a residência da fazenda e um para o Galpão para Máquinas” (Arquitetura Moderna,1997;p.57).

A partir de 1968, desenvolveu seus trabalhos em equipe com os arquitetos Haruyoshi Ono e José Tabacow.

Em suas obras, Burle Marx nos deu a oportunidade de redescobrir a especificidade do modernismo no Brasil. Sua relação com a paisagem foi diferente. Considerado como “o único que soube inventar o jardinismo moderno incorporando o espírito de pesquisa plástica, sobre forma e cor, do movimento europeu dos anos 30” (Nos Jardins de Burle Marx,1996, p.104).

“A prática profissional de Burle Marx como paisagista interessa-nos também porque é uma prática multidisciplinar, uma busca permanente de diálogo entre o arquiteto e o paisagista” (Nos Jardins de Burle Marx,1996, p.115). Para ele, o jardim é “um instrumento de prazer e um meio de educação”, “um exemplo de coexistência pacífica entre diferentes espécies, um lugar de respeito pela natureza e pelo outro” (Nos Jardins de Burle Marx,1996, p.117).

Entre seus trabalhos, evidenciam-se os projetos do Conjunto da Pampulha (1942), o Grande Parque de Araxá (1943), os jardins dos edifícios do Parque Guinle (1947), o jardim do Conjunto Residencial do Pedregulho (1951), o Parque do Ibirapuera ( 1953), os jardins do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro  e o Aterro do Flamengo (1954), a Lagoa Rodrigo de Freitas (1956), O Parque del Este, em Caracas (1956/61), o Parque das Nações Unidas da Cidade de Santiago do Chile (1960), o Eixo Monumental da Cidade de Brasília (1961) o Edifício Sede da Unesco, em Paris (1963), o Jardim das Nações, em Viena, Áustria, o paisagismo do Centro da Barra, Rio de Janeiro (1969), as Calçadas e Jardins da Praia de Copacabana (1970), o Parque Central de Caracas (1970) etc.

Faleceu em 1994 na cidade do Rio de Janeiro.

 

Carlos Millán (1927-1964)

Nasceu em 1927 e formou-se arquiteto pela Universidade Mackenzie em 1951. Inicialmente sofreu a influência de Oswaldo Bratke e Rino Levi. Sua entrada como assistente de uma das cadeiras de composição em 1958, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), foi decisiva, pois teve grande contato com o grupo que estava se esforçando para forjar um tipo de arquitetura paulista, uma unidade estilística inteiramente nova, o Brutalismo.

Despojou-se de todas as considerações puramente estéticas, assumindo um aspecto muito mais radical do que o de João Vilanova Artigas. Sua intransigência chegava a recusar os detalhes que poderiam dar à sua composição uma qualidade plástica, com o objetivo único de conservar uma total coerência de pensamento e de inspiração em seus desenhos. Essa rejeição proposital de tudo que poderia parecer efeito de estilo, tornou sua arquitetura uma manifestação de franqueza, não isenta de brutalidade.

Alcançou importante contribuição para a afirmação da Arquitetura Brasileira, através de sua formação acadêmica qualificada e, em especial, pelo resgate das técnicas construtivas nacionais.

Entre suas obras destacam-se a Casa Fujiwava (1954), a Casa Feitosa (1957), a Casa Nadir de Oliveira (1960), Casa de Roberto Millán (1960), premiada na IV Bienal de São Paulo, o Clube Paineiras (1961) e as Casas Elboux (1962).

Faleceu em 1964, aos 37 anos de idade, vítima de um acidente.

 

 

Bibliografia Utilizada

 

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Ed. Objetiva, Rio de Janeiro, 2001, 1ª edição.

DIAS, Augusto. Um tempo na Vida de São José dos Campos.

DI MAIO, Sonia Vidal. IPAC-TP – Inventário do Patrimônio Arquitetônico e Cultural – Complexo Tecelagem Parahyba.  PUC – Pontifícia Universidade Católica, Campinas, Curso de Especialização – Patrimônio Arquitetônico, Teoria e Projeto. 2000.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Ed. Positivo, Curitiba, 2004, 3ª edição.

PENEDO, Alexandre. Arquitetura Moderna. São José dos Campos, SP. 1997.

OLIVEIRA, José Oswaldo Soares de; FILHO, Urbano Reis Patto; DEMÉTRIO, Claúdia Maria Cruz e OLIVEIRA, João Batista Soares de. Sant’Anna – São José dos Campos – evolução histórica e diretrizes urbanas. São José dos Campos, J. O. S. de Oliveira, 1997. 

CAMARGO, Haroldo Leitão. Patrimônio Histórico e Cultural. Editora ALEPH. São

       Paulo, 2002. Col. ABC do Turismo.

VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808). Objetiva. Rio de

        Janeiro, 2002.

 

 

Fontes e Publicações

 

Nas Trilhas do Passado. PEP – Programa de Educação Patrimonial. Fundação Cultural Cassiano Ricardo. Prefeitura Municipal de São José dos Campos, Dezembro de 2005.

Atas da Câmara Municipal de São José dos Campos. 1920 -1930. Fundo Câmara Municipal.

Correio Joseense. Napoleão Monteiro. São José dos Campos 1920-1940.

Jornal Valeparaibano – 1950-1967.

MONTEIRO, Napoleão. Almanaque de 1922. São José dos Campos, 1922.

CALDEIRA, João Netto. Álbum de 1934. Organização Cruzeiro do Sul. 1934.

Fundo Tecelagem Parahyba. Atas de Diretoria 1925-1933.

Museu Municipal

Acervo Malú Gomes.

Departamento de Patrimônio Histórico 

Acervo Tecelagem Parahyba

 

Entrevistas

 

Jurdina Auricchio Rojas – Chefe do Departamento Pessoal da Fazenda Sant’ana do Rio Abaixo e do Complexo Tecelagem Parahyba, de 1946 a 1993.

Saulo – Funcionário da Fundhas, trabalhou na manutenção dos jardins da Família Gomes.

Malú Gomes – Neta de Olivo Gomes, Filha de Clemente Gomes, foi diretora de Cultura da Fundação Cultural Cassiano Ricardo.

 

Sites utilizados

 

http://www.brasilescola.com/historiag/crise29.htm - Sobre a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque

http://www.geocities.com/Athens/Troy/9288/ - Sobre o Movimento Constitucionalista de 1932.

http://www.geocities.com/Athens/Troy/9288/historia.htm - Sobre o Movimento Constitucionalista de 1932.

http://www.novomilenio.inf.br/guaruja/gh011.htm - Sobre a Industrialização Brasileira

http://www.vestibular1.com.br - Sobre a Industrialização Brasileira

http://www.cpdoc.fgv.br/nav_historia/htm/anos20/ev_cafeeind001.htm - Sobre a Industrialização Brasileira

http://ssooweb01.univali.br/prof/SUZI%20MARY%20HAMILKA%20IPIRANGA/O%20In%A1cio%20da%20Industrializa%87ao%20no%20Brasil%203.doc - Sobre a Industrialização Brasileira

http://ssooweb01.univali.br/prof/SUZI%20MARY%20HAMILKA%20IPIRANGA/Origens%20e%20etapas%20da%20industrializa%87ao%20no%20Brasil.doc - Sobre a Industrialização Brasileira

 


[1] http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=620

[2] Arquitetura Industrial, LIF 08/98, painel.

[3] http://www.novomilenio.inf.br/guaruja/gh011.htm

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